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Embora Tudo seja "UM", em realidade e essência, Tudo se manifesta e aparece como "Dois”.

ADOUM, Jorge

Simbolismos Geométrico dos Números Zero, Um, Dois e Três

1987

 

Nas Ordens Iniciáticas vamos encontrar símbolos de várias naturezas, tais como objetos, gravuras, desenhos geométricos algarismos e outros. Em todas as ciências iniciáticas, e especialmente na Cabala, os algarismos têm uma grande importância simbólica porque podem representar conceitos e ensinamentos que devem ser cuidadosamente guardados.

Em palestra anterior comentamos sobre o que existia antes do universo primitivo, afirmando que apenas existia a Consciência Cósmica e uma “Essência” especial susceptível de vibrar. Aquela "essência", de certa forma, comporta-se como o “nada”, pois coisa alguma reconhecível se manifesta nela, nenhum evento passível de ser compreendido ou percebido pelo ser humano acontece em seu seio. Por outro lado, também não é um “nada absoluto” desde lá existe a própria essência. É um “nada” como manifestação, mas não como existência. Não é um “nada” absoluto, pois ali existe um princípio imanifesto contido[1].

Como representar graficamente uma situação de tal natureza? - Certamente a figura geométrica que melhor se presta para esse fim é um círculo vazio, e numericamente o zero.

O zero absoluto - vazio absoluto - não pode existir porque onde nada houver ainda existe MA[2]. O zero absoluto só pode existir como parte do Inefável. Como “fora” deste só existe MA e RA como aspectos de uma mesma coisa. MA e RA não são coisas, não são algo, se tratam apenas de “condições”. São condições que existem embora não passiveis de serem detectados. Se MA e RA existem como atributos de UM SER, que podem ser representados numericamente pelo número “UM”. Por outro lado, quando a condição MA interage com a condição RA ocorre a polarização e então é possível algo conscientizado como alguma expressão de existência. É a atuação de RA sobre MA que faz com que o imanifesto possa se tornar manifesto dando origem ao TRÊS, ou seja, à existência mentalizável.

Vimos que em dado momento ocorre uma manifestação de frequência vibratória no seio de MA. “Quando” em algum “ponto” daquilo que os místicos metafísicos chamam de “Oceano Incomensurável de MA”, se faz presente à ação de RA então acontece uma manifestação de vibração e a partir disto passa a existir algo (creação). A natureza daquilo que passa a existir depende da frequência vibratória provocada. Para o nosso raciocínio é bastante entender que passa a existir algo onde antes só existia o imanifesto. Essa situação pode ser representada por um ponto dentro de um círculo vazio. O ponto é MA vibrando e o círculo e o espaço onde o evento está ocorrendo. Na linguagem da física quântica o ponto é um campo, e o círculo vazio o continuum.

No simbolismo numérico o “Ser Supremo”, de Quem RA e MA são atributos, corresponde ao UM, pois retrata o ponto de origem de tudo quanto há, ainda sem polaridade alguma, ainda inconscientizável, dentro do continuum “oceano cósmico”. (Obs.: Usamos o termo universo para expressar tudo aquilo que está presente no espaço, a soma de tudo quando foi creado, ou seja, a existência positiva. A “existência positiva” – creação – mais a “existência” “negativa” – Transcendência – corresponde ao que denominamos de cosmos).

Pelo que já estudamos vemos que uma coisa única, sem um oposto, pode existir, mas não pode ser intelectualizado diretamente. Isto difere, portanto, do zero, do círculo vazio, daquela delimitação de MA que sob nenhuma forma pode ser detectada. A fase zero corresponde à essência primordial em repouso, sem vibração, e que dá origem a tudo. Já na fase um ela pode ser detectada, porém não pode ser ainda intelectualizada espontaneamente, conforme fizemos uma analogia em palestra anterior, com um mundo com um mesmo índice de calor o que faria com as pessoas não perceberem a existência daquilo que chamamos temperatura.

O primeiro momento da creação, a primeira manifestação antes de haver se estabelecido a polarização, pode ser representado pelo número UM. Já vimos que ele não tem existência real para o nosso intelecto. O UM no nível das criações representa a existência imanifesta, apenas um princípio. No plano cósmico significa o princípio, a creação, o primeiro momento da ação de RA sobre MA antes que a polaridade da coisa creada fosse estabelecida.

Uma situação isoladamente nunca será perceptível, por isto se diz que o “um” não existe, isto é, a fase um de alguma coisa não tem existência conscientizável, pelo que pode ser conceituada de inexistente.

Quando nos propomos a analisar algo, inicialmente devemos, de certa forma, isola-lo do ambiente, daquilo que vamos estudar. Para estudar o universo, e todos os seus eventos, a melhor representação é sem dúvidas uma esfera e cuja representação plana é o círculo. Por isto tracemos um círculo representando o universo ou uma parte definida dele. Na Fig. 1 a circunferência representa a delimitação de uma parte ou mesmo de todo o cosmos, num momento em que ainda não havia qualquer coisa manifesta. Não se deve admitir ser essa a situação do “nada”, pois ali havia MA. Como MA não estava vibrando consequentemente não podia ser conscientizado e nem detectado qualquer evento. Tal delimitação (os físicos chamam de “campo”). Mesmo que havendo na delimitação uma essência, contudo coisa alguma pode ser perceptível ou detectada, graficamente é representado pelo círculo vazio, e numericamente pelo zero.

No momento em que a ação de RA (atributo ativo do Inefável) se fez sentir no seio de MA (Meio básico) houve o princípio, o primeiro evento da creação, então a primeira Luz (= vibração) surgiu, embora nessa etapa ela ainda fosse indetectável. Ocorreu, assim, o primeiro ponto de creação que por isto pode ser representado por um ponto dentro de um círculo (Fig. 2). Naquela etapa já existia algo embora imanifesto. Existia porque a ação de RA sobre MA já se fizera sentir, embora nada pudesse ser ainda detectado, por carência de polaridade (Era a fase um do evento). Graficamente a representação do “um” é um ponto dentro de um círculo. Este símbolo representa o “UM”, quer em nível de Transcendência (Ser com dois atributos Ra e Ma) ou a sua manifestação na Creação como origem potencial de tudo quanto há (Ação de Purucha sobre Prakriti termos baseados da doutrina védica).

Agora vamos estabelecer o paralelismo existente entre o que dissemos do ponto de vista místico com aquilo que a ciência contemporânea afirma. Ela diz que o universo teve início a partir de um ponto, de um “átomo primitivo” – Ovo Cósmico – no qual estava de alguma forma contido tudo aquilo que existe, toda a matéria e energia do universo. Ela, porém nada afirma a respeito da natureza do que havia antes[3]. Em dado momento, aquele ponto (singularidade) explodiu e numa sucessão de reações físicas as coisas foram se formando. Inicialmente houve uma mistura de fótons e elétrons, as partículas mais elementares da matéria. Os fótons eram detidos pelos elétrons e assim nada se manifestava, a luz não se manifestava como claridade porque não existiam fótons livres (a luz se manifesta pelos fótons). Somente após um pequeno intervalo de tempo houve um esfriamento e os elétrons puderem se estruturar em átomos e assim os fótons ficaram livres possibilitando a manifestação da luz (claridade).

Vemos que o ponto de vista da creação do Universo visto pela ciência[4] não difere muito da do místico, tudo se prende a simples forma de expressão. Tudo aquilo que existe se origina de um ponto e como tudo provém, de um Poder Superior, simbolicamente podemos também representá-lo por um ponto no centro de um círculo. Tudo parte do Poder, tudo tem origem Nele, logo tudo parte do ponto central para a periferia. (Mas esse Poder não é infinito, pois na realidade, infinito não tem centro, não se contrai e nem se expande, portanto, a maneira como citamos se trata apenas de uma analogia) Numa etapa imediatamente depois da creação foi se estabelecendo a polaridade, graças ao que o evento se tornou passível de ser detectado (corresponde à fase em que os elétrons deixaram livres os fótons, seguindo a hipótese científica). Então ocorreu o movimento e o universo passou a se expandir.  Após ser creado, o evento progressivamente se expandiu – movimento – e expansão pode assim ser representada por uma linha em que os extremos opostos assinalam a polaridade de que todas as coisas são dotadas. Isto acontece numa delimitação espacial representada por um círculo, conforme pode ser visto na Fig. 3.

Qualquer coisa isolada partindo de um ponto para a periferia vai traçando uma linha, daí se dizer que uma linha dentro de um círculo é a representação gráfica da “fase dois” de qualquer manifestação.

A representação simbólica da lei da polaridade é expressa numericamente pelo dois, e graficamente pelo círculo com uma semirreta em seu interior. Fig. 3. Acreditamos que o discípulo a partir deste ponto já esteja em condições de entender o que dizem certos livros em linguagem velada: “Embora tudo seja UM em essência e realidade, tudo, porém só se manifesta como DOIS. Unidade e dualidade estão assim intimamente entrelaçados indicando o Reino Absoluto, e segundo sua expressão aparente e relativa, sem que haja nenhuma separação verdadeira entre estes dois aspectos (ou distintas percepções) da mesma realidade”. “Assim como a unidade caracteriza o Ser, igualmente a dualidade expressa a existência em suas múltiplas formas, os pares de opostos que constituem o selo que marca o mundo dos efeitos. É a lei que governa toda manifestação”.

Mais uma vez, vamos fazer uso daquela analogia apresentada em palestra anterior sobre a não conscientização de uma temperatura uniforme. Uma temperatura única seria um ponto de partida na escala dos diversos níveis de calor.  A representação da temperatura uniforme seria feita por um ponto dentro do círculo. Ocorrendo a mínima variação de temperatura a representação já não seria feita por um ponto, que teoricamente não tem dimensão alguma, mas por uma semirreta. Esta linha poderia ser ou não ser conscientizada, dependendo da existência de um detector que poderia ser ou ser um órgão sensorial. Poderia ser o tato ou um termômetro. No primeiro momento uma mui pequena variação já faz o ponto se estender formando uma linha, mas que só não pode ainda ser conscientizada diretamente apenas por deficiência da percepção sensorial. Somente quando houver se estendido suficiente, quando a temperatura apresentar um desnível capaz de ser detectado, é que será evidenciada a lei da polaridade. Haverá dois polos evidentes, duas situações de idêntica natureza, mas em níveis diferentes.

Quando ocorre a polarização é que o evento se torna registrável. Graficamente os dois polos podem ser representados pelas extremidades da semirreta e fariam parte dela. Quanto ao terceiro ponto, a consciência do fenômeno está sempre fora da linha. Quando observamos algo a nossa visão não faz parte daquele algo. Ela está no universo, mas completamente fora do fenômeno. Enquanto os dois polos são de idêntica natureza do evento, o terceiro ponto, no exemplo, a visão - não o é, por isto é que no gráfico esse terceiro elemento é representado um ponto fora da linha.

Ligando-se o ponto em que se situa a percepção (visão) que registra o evento aos extremos da linha que o constitui, forma-se o desenho de um triângulo dentre de um círculo (Fig. 3). Portanto, um triângulo dentro de um círculo é a representação do mundo das formas com suas três dimensões, é a representação de uma manifestação completa, é o simbolismo geométrico do número três. Por isto é que somente quando uma segunda condição aparece é que a pessoa pode se dar conta da existência de algo.

Somente quando se estabelece uma união entre o positivo e o negativo é que flui a corrente elétrica; somente quando se estabelece uma ligação entre os desníveis da água é que surge a força hidrodinâmica; do contraste entre o escuro e o claro é que surge a noção de luz, e assim por diante.

Conforme comentamos antes, a consciência (consciência no sentido do se dar conta de...) expressa em uma pessoa não tem percepção para um ponto isolado, isto é, para o número UM, enquanto não houver esse ponto se transformado em uma linha, o que equivale à existência de certo nível de contraste representado pela polaridade da linha que é o DOIS.

Usemos como explicação as cores. Tudo começa incolor, o meio básico vai sofrendo uma modificação vibratória até atingir uma frequência em que se manifesta a sensação luminosa de cor. Isto é, o ponto inicial. A cor vai se alterando na medida em que as oscilações vão se ampliando até chegar ao negro, passando por todas as etapas de cores intermediárias. O branco seria uma exclusão, uma ausência do preto ou o inverso. O fenômeno conscientizável é tão somente cor e só temos ciência de sua existência porque um ponto na linha serve de contraste para outro. Na linha representativa das cores, num dos extremos está o branco e no outro o preto.

Na representação geométrica da manifestação da Divindade, a esfera vazia representa o Cosmos primitivo, o "Oceano de MA". Como esfera cósmica tem raio infinito e qualquer ponto dela pode ser aceito como centro, por isto o ponto é colocado no centro da representação plana.

Como um evento qualquer pode ocorrer em qualquer ponto do universo se diz que a “Suprema creação é Onipresente” e consequentemente Onisciente.

Em qualquer ponto dentro da esfera há o meio básico e aquele meio vibrátil quando cicla a 10.000 c/s é som, quando a 20 milhões é onda hertziana. Quando vibra numa determinada frequência é chumbo, quando noutra é prata, noutra é ferro e assim sucessivamente; mas basicamente a coisa é tão somente MA respondendo em diferentes níveis à ação de RA.

Em qualquer ponto dentro dessa esfera há o meio básico e ali pode agir o querer Cósmico no sentido de provocar, ou de modificar a frequência. Assim é como as coisas se criam, como algo surge, desaparece ou se modifica[5] .

Nesta palestra tentamos esclarecer como um evento surge num ponto qualquer da esfera cósmica como resultado da modificação no “oceano de MA” determinado pelo “querer” Cósmico e a partir daquele ponto ela vai se prolongando em um sentido qualquer ao longo do eixo do tempo.

Alguns estudiosos representam graficamente a fase dois por duas linhas confluentes formando um ângulo (Fig. 5). Este tipo de representação é errôneo porque não são duas semirretas a serem consideradas. Se fosse assim dariam a entender dois fenômenos diferentes oriundos de um mesmo ponto.  Isto existe, mas se trata de outro estudo (Desdobramento das Mônadas). A situação dois não forma ângulo com a um. As duas situações são polos opostos de uma mesma coisa por isto deve ser representada por uma só linha. Isto porque se trata de uma mesma coisa, porque têm a mesma natureza. Se há a mesma natureza devem se situar numa mesma linha. A representação exata deve ser uma linha única cujos extremos simbolizam as situações opostas contrastantes. São por estes polos que a consciência se inteira do evento.

O "ponto focal da mente" se liga ao fenômeno conforme a fig. 5. A representação de acordo com a lei da polaridade é feita por meio de uma semirreta cujos extremos representam as situações estremas opostas. É o que a cabala se refere como “Harmonia pela analogia dos contrários”.

Todas as manifestações susceptíveis de serem conscientizadas diretamente são bipolares. Tudo no mundo tem dois extremos. O branco é um extremo e o negro é o outro; a noite é um o dia é o outro; de um lado o mal e do outro o bem. O bem é a ausência do mal. Em tudo há uma polaridade – Princípio Hermético – é, pois, a manifestação dual das coisas conscientizáveis.

Uma observação importante diz respeito à representação de certas condições abstratas como as emoções, os sentimentos, etc. Estas condições abstratas existem na mente, elas não têm existência sem a mente desde que não são algo de natureza vibratória em si. Como não são vibratórias as condições abstratas são representadas por uma linha reta, enquanto as vibratórias o são por uma linha senoidal cujo "passo" indica a frequência. Há uma figura (Tei-Gi) que representa o TAO, ou sejam, as polaridades da energia Yin e Yang que além do significado simbólico também pode ser representativa de um fenômeno oscilatório no universo (Fig. 7). Se as manifestações no Universo não fossem de natureza vibratória a representação de um fenômeno seria como a fig. 2, mas como tudo vibra, portanto a representação deve ser senoidal (Fig. 6) que no conjunto forma a figura do Tai Gi (Fig. 7).  

Talvez um início absoluto nunca haja acontecido[6], pois este nosso universo antes de existir já poderia haver outro em evolução. Talvez nunca haja ocorrido um momento em que MA em sua totalidade estivesse em repouso. É mais provável que aconteça da seguinte forma: Enquanto uma porção do cosmos, do “oceano de MA” está em repouso outra está originando um universo e outra chegando ao fim. Agora mesmo, em alguém ponto do Cosmos deve estar sendo iniciado a primeira alteração de frequência de certa porção de MA iniciando um universo, enquanto outro está em repouso (Pralaya). Parece que nem tudo começou de uma só vez e sim de forma sucessiva, por isto nos livros sangrados se lê:

 

O PODER SUPERIOR ESTÁ PERMANENTEMENTE CREANDO

 

 

[1] Segundo a Teoria Quântica, no Nada há informação.

[2] Também denominado de Fohat por algumas doutrinas.

[3] A Teoria Quântica diz que havia informação.

[4] A ciência cosmológica vem substituindo a Teoria do Big. Bang por uma nova concepção, segundo a Teoria das Cordas. Mas isto não modifica o ponto de vista místico desde que ela considera a ilusão da manifestação e não algo real. Assunto que será estudado em temas avançados do Hermetismo. (Nota colocada em 2004)

[5] A ciência atual tem chegado à ideia aproximada desse tipo de universo segundo um modelo proposto pelo físico inglês P. Dirac.

[6] Em nível de Unicidade coisa alguma foi ou será creado. Este assunto só pode ser discutido em temas bem elevados.