"Há um tempo para tudo, um tempo para cada coisa no céu; um tempo para nascer e um tempo para morrer, um tempo para plantar e um tempo para colher o que se plantou...” (Eclesiástico; Bíblia Sagrada)

O Princípio do Ritmo

 

O ritmo sempre está presente em tudo aquilo que existe dentro da creação. Quando uma manifestação não tem algum ritmo por certo se trata de uma manifestação direta do PODER SUPERIOR.

           

Geralmente as pessoas não pressentem que o ritmo está inerente em tudo aquilo que fazem, que pensam, em todo o organismo e fora dele; na terra, no ar, nos mares, do espaço sideral, etc. Embora o ritmo desempenhe um papel primordial no organismo e fora dele,  as pessoas praticamente não percebem-no.

           

Na própria Bíblia já há menção de ritmo quando diz que há um tempo para tudo, isso quer dizer que há um ritmo inerente à natureza de tudo quanto há.

 

Um ritmo no plantar e no colher, no nascer e morrer...

Dia - noite - dia - noite dia... ( resultado do giro da terra )

Escuro - claro - escuro - claro...

           

Os dias da semana se repetem, os dias do ano também; a posição aparente do sol durante o ano se repete. O sol aparentemente se desloca na linha do horizonte de um lado para o outro, sai de um ponto, se desloca e depois retorna ao mesmo ponto. Ao se observar a posição exata em que o sol  nasce diariamente  pode-se ver que dia após dia durante 6 meses ele se desloca para um lado e nos 6 meses seguintes ele se desloca para  o outro na linha do horizonte. No fim de um ano ele está no ponto exato em que  estava quando do início.

           

As estrelas aparentemente se deslocam no céu; se observarmos uma determinada estrela  ao nascer todos os dias veremos que à cada dia ela surge 6 minutos atrasada em relação ao dia anterior até que após um ano  ela vem a nascer exatamente no mesmo minuto decorrido precisamente um ano.

           

Maré baixa, maré alta, maré baixa, maré alta...

           

A lua se apresenta com um ritmo de 28 dias... Lua nova, lua crescente, lua cheia, lua minguante... cada fase com 7 dias. As fases se repetem assim como o período de lunação durante anos, meses e séculos.

           

O giro da terra tem um ritmo de 24 horas e alguns minutos. Todos os movimentos da terra obedecem a ritmos precisos.

           

Amanhecer... entardecer... anoitecer... amanhecer... entardecer... anoitecer...

           

Segundo a doutrina bramanista e outras  há um ritmo cósmico até mesmo para o universo. O Bramanismo cita uma seqüência que chama  noite e dia de Brahma. Segundo essa doutrina o universo é criado e após uma tempo  muito longo volta  a ser absorvido, depois ressurge e assim prossegue numa sucessão eterna.

           

O que é dito pelo Bramanismo não difere muito do que a cosmologia cientifica atual diz. Tudo começou neste universo a partir do Big Bang. Uma explosão colossal que partiu de um ponto infinitesimal e está criando todo o universo que ainda está em expansão. Conforme a massa total do universo ele pode se contrair até voltar ao ponto  inicial, portanto  atendendo a um processo rítmico.

        

As funções orgânicas são essencialmente rítmicas. Existem inúmeros ritmos no organismo, sendo o mais conhecido deles o ritmo menstrual nas mulheres. Num organismo bem equilibrado este ritmo tem 28 dias.

           

O organismo está sujeito a diversos ritmos. Algumas atividades orgânicas se processam ritmicamente em um período conhecido como ritmo circadiano e que corresponde a um período 20 a 28 horas, conforme o caso.

           

Entre os ritmos do organismo podemos citar a temperatura corporal que oscila ritmicamente  cerca de 0,5o C no período de  24 horas. Na mulher a temperatura oscila ritmicamente não apenas em função das 24 horas, mas também em função do período do ciclo menstrual. As evacuações num indivíduo normal também obedecem ao ritmo circadiano (Ritmo Nycthemeral é  um exato ritmo de 24 horas).

           

O pulso sanguíneo tem um ritmo que corresponde aos batimentos cardíacos.

           

Sempre que algum ritmo esteja  alterado algo de  anormal estará ocorrendo no organismo. Mas, vale salientar que há ritmos que se ajustam às diferentes condições. Após um esforço físico o ritmo cardíaco acelera, não é anormalidade e sim auto-regulagem do ritmos para o atendimento de uma situação diferente.

           

O ritmo circadiano está presente tanto no reino vegetal quanto no animal. Os vegetais alternam a eliminação de gases. Durante o dia eliminam O2  e à noite CO2.  Muitos vegetais têm horas precisas para suas flores desabrocharem.

           

Durante o ano os vegetais têm fases de germinação, fase de repouso fase de floração e fase de frutificação. Pode-se dizer que isto é uma decorrência das 4 estações. Sim, mas as quatro estações já por si são resultantes do ritmo anual das estações.

           

No reino animal há aqueles que hibernam, que ficam em vida latente, há insetos que ficam em vida latente durante longos períodos. Se isso decorre do inverno o inverno decorre do ritmo planetário, sendo assim dá no mesmo, direto ou indiretamente, é fruto do Ritmo.

           

Um exemplo da importância do ritmo no organismo diz respeito às alterações determinadas por mudanças de fuso horário nos que fazem longas viagens. Quando se viaja para um local com algumas horas de diferença horária o organismo necessita de um certo tempo para novamente entrar no novo ritmo.

           

Existem agentes microbiológicos, como a filária, por exemplo, que só circula no sangue  durante à noite cumprindo um ritmo regular.

           

Não vamos nos estender muito na descrição dos ritmos presentes na natureza porque teríamos que escrever  um tratado somente com citações de  ritmos.

           

Agora queremos mostrar que ritmo embora  tenha semelhança com vibração mesmo assim  não são coisas idênticas.

 

 

 

 

 

 

 

Figura 1

 

Pela fig.1 podemos ver que meio ciclo está acima da linha base e meio ciclo abaixo da linha. Pode-se ver que existe uma repetição rítmica tanto na amplitude (repetição de meio ciclos superiores e meios inferiores) e também na freqüência. Mas, é fácil se observar que  a amplitude poderia oscilar aleatoriamente, isto é, oscila com ciclos mais amplos, mais alongados e menos alongados, de maneira irregular. Neste caso a noite representaria uma manifestação arrítmica em amplitude.

           

O mesmo se pode dizer quanto à freqüência, os ciclos poderiam não ser regulares quanto ao número por segundo, assim os ciclos poderiam ser maiores ou menores de uma forma aleatória. Neste caso continuaria sendo uma vibração, evidentemente,  e também ritmo, porém não um ritmo regular em função de uma determinada amplitude ou de um determinado unidade de tempo.

           

O ritmo para ser regular tem que ser determinado em relação à que, pois algo pode ser arrítmico em função de determinados referenciais e  ao mesmo tempo não o ser em relação a outros.

           

Pela figura l podemos pensar numa vibração em que a amplitude variasse aleatoriamente, com picos maiores e picos menores de forma aleatória. Neste caso não seria um ritmo em função de uma amplitude fixa, mas mesmo assim, ainda haveria um ritmo de repetição assinalado para cima e para baixo da linha base. Este ritmo não seria função do tamanho da onda, mas sim em função da repetição para cima e para baixo da linha.

           

No exemplo a onda é rítmica com um ciclo por segundo, mas depois poderia ser de dois ciclos ...de três ciclos...de quatro ciclos, etc. Neste caso não haveria um ritmo regular quando ao tempo, mas  mesmo assim não deixaria de haver um ritmo  irregular, quanto ao tempo.

           

Veja-se que em ambos os casos citados haveria ainda algum ritmo, mas quanto à regularidade não haveria. É fácil se entender que num determinado caso o ritmo pode não existir em função de um determinado parâmetro, mas sim em função de um outro parâmetro. Sendo assim, mesmo naquilo que parece arrítmico ainda existe ritmo, ele pode ser  menos ou mais regular, mas mesmo assim alguma forma de ritmo sempre está presente.

           

Agora, podemos adiantar que  o ritmo existe em função da vibração, toda vibração tem um ritmo que pode ser  regular ou irregular em relação à alguma coisa. Num certo sentido, portanto ritmo é inerente à vibração e  vibração é inerente a ritmo, mas  não exatamente uma coisa só.

           

O princípio do ritmo existe para dar harmonia à vibração. Uma vibração pode ser harmônica ou desarmônica conforme o ritmo.

           

Todas as vibrações ressoam, e ressoam segundo um determinado ritmo, por isso o ritmo está muito  ligado à ressonância.

           

Como decorrência do PRINCIPIO DO RITMO, vejamos um principio místico muito importante. Na natureza as coisas mais elevadas no sentido espiritual são rítmicas, senão vejamos. O giro da terra, a movimentação dos astros,   a movimentação das partículas constitutivas dos átomos, tudo tem um ritmo e um ritmo bem regular.

Na física nuclear sabe-se que os elementos radioativos perdem radioatividade progressivamente, mas segundo um ritmo de grande precisão. Os elementos vão sofrendo transmutações com o decorrer do tempo e isto num  período rítmico também definido. Nisto se baseiam os relógios de ultraprecisão, os relógios atômicos. Os relógios atômicos baseiam-se no ritmo das reações nucleares de alguns elementos químicos, como o Caesio.

           

Quanto mais  elevada for a natureza de alguma coisa mais  rítmicas são as suas vibrações. Isto não diz respeito somente às coisas materiais, mas também a tudo quando há no universo, chegando mesmo à própria natureza  e qualidades do espírito.

           

Quando estudamos as formas geométricas mostramos que  as cosias elevadas tendem à forma circular enquanto as materiais tendem para a angular. Quanto ao ritmo também podemos dizer que  as coisas quanto mais  inferiores menos rítmicas elas são. As coisas diretamente ligadas à FORÇA SUPERIOR são  perfeitamente rítmicas em todos os sentidos.

           

As coisas menos rítmicas são mais do lado inferior enquanto que as de Deus sempre são rítmicas. 

           

Ritmo só existe dentro da creação, ao nível do NADA não existe nem o rítmico e nem o arrítmico, pois nada ali se move, não há vibração alguma, e sem vibração não há ritmo também.Ali ele existe apenas como uma potencialidade não como ação. Ritmo em ação é uma característica da das coisas criadas; aquilo que não tiver ritmo é uma face do PODER SUPERIOR.[1]

           

Dissemos que ritmo sempre está assinalado como função de alguma coisa. Na figura 1 ele pode estar relacionado com a amplitude da onda, ou com a freqüência – o tempo. Vale, pois, lembrar que num determinado evento pode haver ritmo em relação a um determinado referencial e não a um outro. Por exemplo, na fig. 1 poderia haver ritmo de freqüência, isto é  a freqüência se repetir ritmicamente para um mesmo tempo, mas poderia não haver quanto à amplitude, ou vice-versa. Suponhamos que seja de 1 ciclo/seg., mas em amplitude poderia cada  onda ter uma amplitude diferente portando sendo arrítmica em amplitude.             

           

Ao nível da FORÇA SUPERIOR há ritmo perfeito em todos os sentidos, em todos os referenciais possíveis enquanto que ao nível do PODER SUPERIOR não há qualquer ritmo manifesto, mesmo que o ritmo faça parte da Sua própria natureza. Tal como a vibração também o ritmo é uma das faces do PODER SUPERIOR. Onde quer que não se detecte ritmo por certo ali está uma das faces do PODER SUPERIOR.

           

Façamos agora aquele mesmo exercício mental que fizemos na palestra anterior a respeito de se aumentar e diminuir seguidamente a vibração. Aumentando-se o ritmo ele vai se tornando acelerado, mas sempre poderá ser aumentado até sair do descontínuo e penetrar no contínuo, ou seja, quando atingir o Infinito. O mesmo no sentido inverso, diminuir o ritmo, a onda cada vez vai ficando mais larga, se aproximando de uma reta, mas somente no infinito é que não mais poderá haver diminuição ou aumento. Assim tal como a vibração, o ritmo também tem os seus dois limites no continuo, no infinito. Somente pode haver ritmo ao nível do descontinuo.

           

Ritmo está limitado em seus dois extremos pelo infinito. O continuo torna-se descontínuo e surge o ritmo. Somente no descontínuo pode haver ritmo.

           

Partindo-se do continuo chega-se ao descontínuo, e no sentido inverso chega-se ao infinito, ao continuo. Assim podemos dizer que nos extremos, o ritmo é o contínuo.

           

Não é possível dentro da creação se abolir ritmo ou se fazer com que ele deixe de afetar todas as coisas. É por isso que uma música exerce tanta influência sobre as pessoas. Desde o mais antigo ser vivo na terra de uma certa forma o ritmo influencia todas as gerações. Sabe-se que até mesmo os animais sofrem influência do ritmo música.

 

Eis o porquê do comportamento das serpentes diante da flauta do encantador; eis porque das vacas darem mais, ou menos, leite conforme  um ritmo música; eis o porquê as crianças se acalmarem com os cantos de ninar; eis o porquê de uma música tanto poder despertar a belicosidade – músicas marciais – quanto um estado de calma.

           

O efeito da música sobre as pessoas é muito maior do que se pode pensar à primeira vista. A música é mais forte do que a própria palavra, por isto é que nas religiões as palavras são musicadas, existindo, por exemplo, os “pontos” da umbanda, os “mantras” das religiões orientais, os hinos de várias religiões, as “chamadas” de algumas outras.

           

Nas práticas antes assinaladas, três elementos estão em jogo: a palavra, a vibração e o ritmo. Um hino, um ponto, ou uma chamada quando cantada com desafinação tem menos força de persuasão do que um com a precisa afinação, pois  naquele caso há sacrifício de um dos três elementos básicos, o ritmo.

           

Pela música pode-se conduzir multidões, induzir pessoas a determinadas atitudes; é possível provocar doenças assim como promover curas; desequilibrar e equilibrar; estabelecer ligações com o  mundo astral, e uma infinidade de coisas mais.

 

Tudo isso é possível, pois que  entre todos os eventos existe sempre o fortíssimo elo do ritmo. Pelo ritmo todas as coisas do universo estabelecem ligações entre si. Se tudo é vibração, se tudo dentro da creação está vibrando, e como tal mantendo um determinado ritmo, logo entre  as coisas existentes  sempre está presente um estado de desarmonia ou de harmonia estabelecido exatamente pelo ritmo.  Não existe um povo na terra, uma tribo sequer que não tenha suas danças, os seus ritmos musicais. Isto decorre desse principio. Sempre que  uma pessoa está diante de um ritmo sente o seu efeito imediato, por isso não se deve coibir as danças. Deve-se sim metodizá-las, tirar delas o lado sensual, mas jamais proibir uma pessoa de dançar.  (Quando dizemos dança estamos salientando que pode ser o simples tamborilar de um dedo, de um pé, ou do corpo todo, quer lentamente quer em rodopios fantásticos como o fazem os Dervixes para entrarem em êxtase). Se for coibido o ritmo um pessoa está sujeita a se neurotizar.

           

Para concluir esta palestra vejamos que o ritmo é quem equilibra a vibração e é a vibração é  quem condiciona o ritmo, por isso são condições intimamente relacionadas entre si.

 

 

 

[1] -  Denominamos  FORÇA SUPERIOR  o maior poder positivo dentro da creação  e PODER SUPERIOR  o poder absoluto, dentro e fora da creação, o poder maior que domina tanto o manifesto quanto o imanifesto.