“Não se pode acumular ouro e pedras preciosas, sem ter lugar seguro para guardá-los”.

A Sublimidade dos Princípios Herméticos

 

Fala-se muito em salvação,  paraíso, e assim por diante, mas na verdade tudo isso não são condições indicativas de que o ser se libertou do jogo do existir, característica da dualidade. Ele pode se libertar das leis dos homens, mas, mesmo assim, continuará cativo do mundo dualístico; ele pode se libertar do sagrado, mas não pode se libertar do Divino expresso nas leis de Deus, ou seja, nas leis imperantes do jogo virtual. As leis sagradas levam a estados de descanso, à paradas na conscientização do existir dentro do jogo. E  conhecendo as Leis Divinas, que são as leis da Natureza, ele pode passo a passo sair da realidade virtual vivida na Imanência.

 

Se examinarmos com cuidado, podemos entender que os que conhecem os chamados Princípios Herméticos entendem que toda as leis existentes no mundo, quer sejam artificiais ou naturais, sem exceção, dependem diretamente daqueles Princípios. Em  diversas palestras, já mostramos que em todas as circunstâncias os Princípios Herméticos regem tudo quanto há, constituindo as bases fundamentais de tudo aquilo que integra o Mundo Imanente. Se o Mundo Imanente nada mais é do que uma aparência, então os Princípios Herméticos são a gênese da ilusão que compreende o chamado “Mundo de Maya”. Também já mostramos que todos os Princípios Herméticos na verdade se resumem a Um  só, os demais são apenas aspectos secundários. 

 

Operando com sabedoria os Princípios Herméticos o ser pode dar andamento à sua libertação. Qualquer modificação que se tente em  qualquer um dos Princípios, por certo, implicará em uma conseqüência e essa poderá ser prazerosa ou desprazerosa. Exemplifiquemos isso de forma a facilitar o que estamos tentando transmitir. Pela aplicação do Princípio da Vibração tudo pode ser mudado dentro da imanência, todas as transformações podem se operar. Sem dúvida, é pela vibração que ocorrem as transformações, num sentido ou noutro. É por meio da vibração que tudo pode ser construído, bem como transformado ou destruído. Para qualquer modificação que se possa determinar sobre a vibração inexoravelmente haverá uma resposta, resultam conseqüências que podem ser ou não agradáveis.

 

Dentro do raciocínio exposto antes, pode-se perceber que tudo aquilo que é inerente à ação do ser, na verdade,  processa-se graças a ação de algum Principio Hermético. Transgredir uma lei dos homens não implica em conseqüências espirituais quaisquer, a não ser aquelas impostas pelo próprio homem em decorrência de  infligir seu próprio código pessoal, gerando culpa; mas o mesmo não acontece quando se inflige um Principio Hermético, disto advirão conseqüências, independentemente da violação ou não dos códigos estabelecidos pela pessoa.

 

Infligir as Leis Divinas com certeza trará conseqüências, não que elas representem punição, mas sim porque desencadeiam reações dentro do próprio meio existencial. “Não se agride impunemente a Natureza”. “A Natureza sempre se vinga de quem a agride”. Estes ditados refletem uma verdade. À  rigor não ocorre uma vingança, mas sim uma resposta natural no cumprimento da lei.

 

O Hermetismo vê Deus na manifestação das Leis da Natureza e, por isso, elas são consideradas sagradas. Sem os Princípios Herméticos não haveria o Mundo Imanente, este aspecto do Uno não se manifestaria, todos os valores estariam ausentes e, conseqüentemente, Deus não poderia se manifestar, ou seja, Deus não poderia ver a face de Deus. A Consciência não se manifestaria, desde que ela só se manifesta através das coisas criadas. Purucha não poderia se dar conta de si mesma se não houvesse Prakriti, e esta qualidade, na realidade, depende das leis físicas que, por sua vez, são desdobramentos dos próprios Princípios Herméticos.

 

O Hermetismo – V\O\H\ – atribui grande importância às leis dos homens, pois elas contribuem para conduzir a mente a um estado de não culpa, mas, fora isso, não tem implicações no processo da criação. Ética, moral, virtudes são valores totalmente relativos, não acontecendo o mesmo com as Leis de Deus. Pode haver uma manifestação relativa ligada a algum Princípio Hermético, mas que em si mesmo não está sujeito à relatividade. Qualquer relatividade atribuível a um Princípio Hermético só pode ser estabelecido em função de um outro Principio, pois na creação não existe qualquer outro referencial ante o qual possa ser estabelecida uma relação. Já vimos antes, os Princípios resumem-se a apenas Um, logo... num contexto mais vasto, nem mesmo a relatividade pode ser aceita como algo absoluto.

 

Enfocando-se o Monismo, podemos sentir que não cabem as indagações e conclusões expressas antes, que não há sentido e nem lugar para tais indagações, nem sequer para o sentido de Divino ou de Sagrado, pois no “Uno” não pode existir algo além que posse ser considerado Sagrado ou Divino. Estes conceitos só têm sentido no mundo dialético, no mundo imanente, não no Transcendente.  Por tal razão podemos dizer que tanto as “leis dos homens” quanto à “Leis Divinas”, essencialmente, só existem no mundo imanente e por ser este o “mundo de maya”, conseqüentemente, até mesmo as Leis Divinas são ilusões, são regras que compõem o “jogo virtual da existência”.

 

Considerando-se o que acaba de ser dito, cabe a indagação: E o que gera a própria ilusão não é uma Lei? - A resposta é afirmativa, a ilusão da dualidade tem como base uma Lei, mas que na verdade é a Única existente, e expressa a Consciência fragmentariamente em nós, como se fosse uma multiplicidade. Deus pode ser considerado essa Lei Única, como já tratamos em diversos temas bem anteriores. [1] Em síntese, a Lei Divina é o próprio Deus.

 

Concluiremos essa palestra com algo deveras significativo. Se existe o mal e se tudo é Deus - o Uno - como conciliar as duas expressões de existência, o bem e o mal? Se tudo é Deus e se Ele é o Bem Absoluto como entender o mal? Mesmo a afirmação de que isso é o resultado do Princípio da Polaridade, ainda assim não atende à nossa compreensão. Pelo que temos dito muitas vezes, bem é aquilo que se nos apresenta como prazeroso, independentemente da sua natureza intrínseca. Como diz o M. Gabriel “O bem quem sabe é quem recebe”. Portanto, podemos dizer que aquilo que a consciência em nível de dualidade, ou melhor, aquilo que para a “nossa” consciência é algo mau, na realidade pode ser prazeroso para uma consciência mais vasta.

 

Se Deus “criou” a manifestação fragmentar, se Ele transparece a dualidade onde se manifesta a própria polaridade, a aparência divisionária das coisas, se cria o “jogo virtual da existência” é porque isso Lhe dá alguma forma de prazer, então o jogo pode ser sentido como desprazeroso para aquele que estiver dentro dele, mas não para quem estiver de fora. Se a existência tal como a concebemos é parte de Deus e se Ele a manifesta é porque isso lhe é prazeroso de alguma forma. A creação quer seja considerada ilusória ou não, evidentemente é algo prazeroso a Deus, portanto para Ele é bom, e o que é bom é um bem. Daí termos que admitir que em nível de Deus só exista o Bem. Se não fosse assim Deus seria um sofredor, ou um masoquista.

 

Sei que não é fácil se entender isso, temos grande dificuldade em transmitir estes conceitos avançados por meio de palavras. Só pelo sentimento se pode penetrar neste mistério, mas no nível de estudo a que já chegamos isso não é difícil de ser concebido.

 

 

 

[1] Vide temas: 702 - 703 - 704 - 705 - 706 - 707.